Como ter uma vida plena e satisfeita em uma sociedade baseada no consumo?

O cristianismo atual, muitas vezes, aponta mais para os Rolling Stones, quando cantam “I can’t get no satisfaction” (não consigo ficar satisfeito), do que para o Deus que “tanto amou o mundo que DEU”.

Há alguns vários anos, um vídeo que ficou um tanto conhecido mostrava Pedro Bial em um quadro do Big Brother Brasil falando sobre o que ele considera o hino do século XX: a música dos Rolling Stones “I can’t get no satisfaction”, em tradução livre “Não consigo ficar satisfeito”.  

A leitura dele, para mim, é extremamente correta. Ele não só explica a maneira como o homem pós-moderno pensa, mas como ele interpreta o mundo. Uma sociedade como a nossa, baseada em consumo, somente espelha um homem que nunca fica satisfeito e sempre PRECISA para ser feliz. Consumir acaba se tornando uma necessidade para alcançar plenitude de vida.

Um coração que nunca fica satisfeito vai consumir tudo o que estiver ao seu redor, assim, consumismo é mais que um ato de compra excessiva, é a manifestação de um coração insatisfeito. Devemos pensar no consumismo como o esforço de um coração incansável em obter plenitude por meio daquilo que nunca vai prover plenitude, tais como: bens, dinheiro, relacionamentos e, até mesmo, o próprio Deus.  

A grande questão é: como viver neste mundo sem consumirmos tudo o que está ao nosso redor para obtermos plenitude?

Quando Jesus explica o relacionamento dEle com o Pai, em João capítulo 17, no verso 13 ele fala algo muito curioso: “Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria.” Jesus é o caminho para o Pai (João 14.6), nenhum de nós chegará até o Pai sem ser por Cristo, e quando Cristo explica onde está a alegria completa ou plena, ele aponta para o seu relacionamento com o Pai.

A nossa alegria plena será assim somente com base no relacionamento com o Pai. Creio que nós somos criados com uma insatisfação com o que temos, e essa insatisfação foi dada por Deus para entendermos que precisamos de algo além de nós mesmos, e que nossa alegria será completa somente no relacionamento com o Pai. Deus nos criou para sermos insatisfeitos. Os Rolling Stones estão corretos quando verificam que é impossível se satisfazer com as coisas deste mundo. No entanto, erroneamente, eles não apontam para como podemos ter satisfação. Com as coisas deste mundo sempre continuaremos insatisfeitos, mas Jesus aponta para uma satisfação que Ele, de fato, possuía, fruto do seu relacionamento com o Pai.

A relação entre os membros da Trindade, as chamadas relações intratrinitarianas, apontam para como devemos viver. Deus vive em plenitude somente porque é uma comunidade. Se Deus fosse monopessoal, ou seja, uma pessoa só, não poderia ser pleno no que tange a relacionamentos, porque necessitaria de algo além de si mesmo para viver em um relacionamento. Devemos entender que Deus, mesmo antes de criar todas as coisas, sempre viveu de maneira completa. Segundo as palavras de Tertuliano em 210 d.C: “Antes de todas as coisas Deus estava sozinho, sendo Ele seu próprio universo, lugar e tudo. Mas ele somente estava sozinho no sentido que não havia nada externo além de si mesmo“. E esse viver completo somente era possível porque Deus existia em comunidade.

Assim, aquele que deseja uma vida plena nunca a encontrará em outro lugar, se não em Deus, à medida em que replica a forma como Ele mesmo viveu: sempre em comunidade e entregando quem Ele é para o outro. Portanto, uma vida plena é um relacionamento comunitário em contato direto com o Pai, por meio do Filho.

Por isso, a característica da semana para aquele que adota uma cosmovisão trinitariana é:

Entende que a autoentrega é a base para a mutualidade e que a única maneira de espelhar a Deus é em comunidade. Assim, o consumo é parte da vida, mas não a essência da vida.